09/07/05

Astor Piazzolla, Treze Anos sem o Maestro
Em uma de suas apresentações
no Brasil, Astor Piazzolla teve em seu público um nome
famoso: o poeta e diplomata Vinícius de Morais. Com seu
jeito bem peculiar, o poetinha estava extasiado com a música
do mestre do bandoleon. E exclamava sem pudor ou cerimônia
“Filho da puta!” deversas vezes ao longo do show.
Depois no camarim, os dois se encontraram e Vinícius explicou
que o “filho da puta” que ele estava chamando era
por que ele tocava muito, e era elogioso, não pejorativo.
Bem, o poeta era ele, e as palavras nas mãos dos poetas
são distorcidas e assumem novo significado. Se para Vinícius
“filho da puta”, naquele contexto era um elogio, então
deveria sr sinônimo de “sublime”, já
que é o mínimo que se pode falar sobre a obra de
Astor Piazzolla, o artista que revolucionou o tango e que deixou
este mundo em 4 de julho de 1992.
Origem do Tango
O tango é uma música
que, como o blues e o jazz, teve sua origem nas camadas mais pobres
da sociedade, no caso a sociedade portenha na segunda metade do
século XIX. Originalmente tocada na região do cais
de Buenos Aires, passou a se espalhar pelos bairros mais pobres
e ser associada à malandragem local. Mas as décadas
seguintes tornaram o tango um símbolo de Buenos Aires e
motivo de orgulho nacional. Certamente seu maior e mais famoso
representante foi Carlos Gardel.
Astor Pantaleon Piazzolla Manetti nasceu em 11 de março
de 1921 em Mar Del Plata, na efervescência do ritmo portenho.
Seus pais eram descendentes de imigrantes italianos, Astor dividiria
seu tempo de infância entre New York e Buenos Aires. Sua
infância foi pobre e cheia de dificuldades (ele precisou
passar por um doloroso tratamento no pé direito). Seu pai
sempre o incentivou a ser músico, e o garoto já
tocava piano quando seu pai lhe presenteou com algo que mudaria
sua vida: um bandoleon. A partir desse presente, o garoto se decidiu
pelo instrumento e pelo ritmo. Nas suas palavras: “Se ele
tivesse me dado um sax eu teria feito jazz. Mas foi o tango”.
Ainda adolescente, ele conhece o ídolo Carlos Gardel, faz
uma pequena ponta no filme El Dia em Que Me Quieras e passa a
acompanhar o “tanguero” em pequenas apresentações
como solista de bandoleon. Mas seu diferencial já aparecia,
pois Gardel o advertia de que ele tocava “como um gallego”.
Isso refletia as formações eruditas e barrocas do
jovem, que já influenciava sua música. Nos anos
40, ao voltar a Buenos Aires, ele encontra a cidade sob o auge
do tango tocado por orquestras típicas. Ele ingressa na
orquestra de Aníbal Carmelo Troilo, e seus arranjos ousados
já chamam a atenção. Ele monta sua própria
orquestra típica em 1946, e toma contato com conceituados
músicos eruditos, como Arthur Rubinstein, Alberto Ginastera
e Juan José Castro. Este último incentiva o jovem
a inscrever suas composições em um concurso de música.
Ele ganha tal concurso, o prêmio Fabien Sevitzky, e também
ganha uma bolsa de um ano do governo francês, e em 1952
ele viaja cm sua esposa para Paris, onde tomou aulas com a renomada
Nadia Boulanger, que lhe influencia a estudar as fugas e contrapontos
de Bach. Segundo confidenciou Piazzolla, ela teria lhe dito, ao
escutá-lo executar uma de suas composições,
“Jamais abandone essa música. Essa é sua música,
é aqui que está Piazzolla”. Ele descrevera
este momento como uma epifania.
O Tango Renasce
Ao voltar para Buenos Aires,
na segunda metade da década de 50, ele já tem em
mente os conceitos do que seria chamado de “Tango Novo”,
e monta seu Octeto Buenos Aires. A formação dos
músicos, os arranjos jazzísticos e outras ousadias,
como a introdução da guitarra, arrepiaram os cabelos
dos tangueros tradicionais, que criticavam seu trabalho ao pinto
de alegarem que sua música não era tango. E a atitude
de Astor provavelmente enfurecesse mais ainda seus críticos.
Ele costumava dizer que sua música era para os ouvidos,
e não para os seus pés, costumava se vestir informalmente
nas apresentações, e brandia seu instrumento em
pé, ao contrário do tradicional, que seria sentado.
Para se ter uma idéia da comoção causada
entre os músicos mais tradicionais, um deles chegou a invadir
um estúdio de rádio onde Piazzolla concedia entrevista,
armado de revólver.
É nos anos 60 que ele compõe aquela que seria sua
mais conhecida música: Adiós Nonino, uma singela
homenagem ao seu pai, uma elegia de dor e tristeza. Nessa época
ele passa a se apresentar com a formação de quinteto.
Outros sucessos se seguiram, como Milonga Del Angel, Decarissimo,
Años de Soledad (um belo dueto com o saxofone de Gerry
Mulligan), Tristeza de um Doble A (referência a marca de
Bandoleon preferida dos argentinos), Fuga y Mistério, Suíte
Punta Del Este, entre centenas de composições, em
sua grande maioria apenas instrumentais. Mas havia canções
também, como Balada para um Loco, uma entre as várias
colaborações com o poeta Horacio Ferrer, além
dos poemas de Jorge Luis Borges que ele musicou. Muitas de suas
músicas foram produzidas para trilhas sonoras, também.
Tão pouco compreendido em seu país, Astor viajou
mundo afora apresentando suas composições e encantando
a todos. A América e a Europa são agraciadas com
suas apresentações. Paris adotou o filho pródigo,
e lá Piazzolla realizou os famosos encontros Lês
Trottoirs de Buenos Aires. Em Ney York, teve o privilégio
de se apresentarno philarmonic Hall. E no Brasil sempre teve bom
trânsito, tanto entre o público quanto entre os artistas
locais. Ironicamente, é bem provável que os brasileiros
tenham gostado mais dele do que seus próprios patrícios.
Apesar dos tradicionalistas tangueros renegarem o tango de Piazzolla,
este nunca abandonou suas raízes, e sim deu um sopro de
ar fresco ao gênero, introduzindo elementos do jazz e de
música erudita. O resultado é uma música
tecnicamente impecável e visceralmente emocional. “O
tango nunca será alegre, quando percebo que a platéia
chora, fico contente”, dizia o mestre. E é difícil
segurar a emoção ao se ouvir Adios Nonino, Mort
ou Prelúdio Nº 9.
Nos últimos anos de atividade, Piazzolla passou a se apresentar
como solista acompanhado por uma orquestra sinfônica, e
eventualmente com um quinteto de bandoleon, guitarra, violoncelo,
contrabaixo e piano. Sua última apresentação
ao vivo ocorreu em novembro de 1989, em Lausanne. Nove meses depois
ele teria um derrame e entraria em coma, e em 4 de julho de 1992
viria a falecer em Buenos Aires, aos 71 anos de idade.
O Legado de um Gênio
Sua música transcendeu
sua terra e seu tempo.E ainda desperta paixões, entre músicos
de diversos gêneros. Músicos que acompanharam o maestro,
como Daniel Binelli ou Fernando Suaréz Paz, já gravaram
obras em homenagem ao argentino. O violoncelista Yo-Yo Ma, os
pianistas Daniel Barenboim e Arthur Moreira Lima, o violinista
russo Gidon Kremer, o quarteto de cordas Kronos...Enfim, Piazzolla
será lembrado ao lado dos grandes músicos. Sua música
se tornou universal.
Dicas de Discos
Piazzolla gravou dezenas de
discos ao longo de sua vida. Caso você tenha que ter pelo
menos um disco de Piazzolla, uma boa dica é a gravação
da sua última apresentação ao vivo. Astor
Piazzolla – Tango, Nuevo Tango, lançado pela Kuarup,
é um bom retrato da trajetória de Piazzolla. Obviamente
não é completo, mas lá tem uma das melhores
interpretações de Adiós Nonino e Milonga
Del Angel.
O público brasileiro
nunca teve nenhuma exigência quanto à fidelidade
ao tango tradicional, daí soube aproveitar ao máximo
a obra de Piazzolla. E também soube retribuir. O espetáculo
Piazzolando rendeu dois discos (um ao vivo e um em estúdio)
reunindo músicos brasileiros, como Egberto Gismonti, Jacques
Morelembaum, Chiquinho do Acordeon e Lilian Barreto. O quinteto
de cordas da Paraíba interpretou músicas de Piazzolla
no disco Armorial e Piazzolla, como também o Quarteto Amazônia.